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Após anos de evidência, HIFU é reconhecido pelo CFM como terapia para câncer de próstata

  • 15 de jun.
  • 4 min de leitura

Recentemente, o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicou a regulamentação que reconhece o Ultrassom Focalizado de Alta Intensidade (HIFU) como uma alternativa terapêutica para pacientes com câncer de próstata localizado.


Dr. Gustavo Guimarães

Para muitos, essa notícia representa apenas a aprovação de uma nova tecnologia. Para mim, ela simboliza algo muito maior: o reconhecimento de um trabalho científico construído ao longo de décadas por pesquisadores, médicos e instituições que acreditaram no potencial dessa modalidade de tratamento quando ela ainda era vista com cautela.


Tenho acompanhado a evolução do HIFU desde os seus estágios iniciais de desenvolvimento clínico e tive a oportunidade de participar de estudos, discussões científicas e iniciativas de formação que contribuíram para a consolidação do método no Brasil. Por isso, considero essa decisão um marco importante para os pacientes e para a oncologia urológica nacional.


Mais do que incorporar uma nova tecnologia, o país passa a alinhar sua prática ao que já ocorre em diversos centros de referência internacionais, ampliando as opções terapêuticas disponíveis para homens com câncer de próstata localizado.


A evolução das evidências transformou o HIFU em uma alternativa reconhecida para câncer de próstata


A medicina baseada em evidências exige tempo, rigor científico e acompanhamento de longo prazo. Foi exatamente esse processo que acompanhamos com o HIFU nos últimos anos.


A tecnologia utiliza ondas de ultrassom de alta intensidade capazes de gerar calor em pontos específicos da próstata, promovendo a destruição das células tumorais por necrose térmica.

O grande diferencial é a precisão com que essa energia pode ser aplicada.


Por meio de imagens em tempo real e planejamento tridimensional, é possível direcionar o tratamento exatamente para a região que precisa ser tratada. Dependendo da extensão e da localização do tumor, o HIFU pode ser realizado em toda a próstata ou de forma focal, preservando áreas saudáveis do órgão.


Essa característica tem sido um dos principais fatores de interesse da comunidade científica. Ao tratar apenas a região acometida pela doença em pacientes adequadamente selecionados, podemos reduzir impactos sobre estruturas relacionadas à continência urinária e à função sexual, aspectos que influenciam diretamente a qualidade de vida após o tratamento.


Quando o CFM avaliou a tecnologia em 2020, o entendimento era de que ainda não existiam evidências suficientes para sua incorporação fora do contexto de pesquisa clínica. Naquela época, as principais limitações estavam relacionadas ao tempo de seguimento dos estudos, à ausência de ensaios clínicos comparativos mais robustos e à dificuldade de padronização de alguns critérios de avaliação.


Nos últimos anos, porém, esse cenário mudou significativamente. Os resultados passaram a demonstrar de forma cada vez mais consistente que o HIFU pode oferecer controle oncológico adequado em pacientes criteriosamente selecionados.


A decisão do CFM reflete exatamente esse amadurecimento da evidência científica e da experiência clínica acumulada ao longo do tempo.


Os estudos que ajudaram a construir esse novo cenário


Uma das razões pelas quais considero essa aprovação tão importante em nosso cenário é o fato de que pesquisadores brasileiros participaram ativamente da geração de evidências que sustentaram essa mudança de entendimento.


Em março de 2026, foi publicado na revista Prostate International um estudo envolvendo 208 pacientes submetidos ao HIFU em um centro brasileiro. O trabalho demonstrou que o escore CAPRA atua como preditor independentemente de recorrência bioquímica e falha terapêutica, permitindo uma estratificação de risco consistente ao longo do seguimento.


Os resultados mostraram taxas de sobrevida livre de recorrência em cinco anos de 81,5% para pacientes de baixo risco, 50,7% para pacientes de risco intermediário e 16,4% para aqueles classificados como alto risco. Mais do que os números em si, o estudo reforçou um conceito fundamental: a seleção adequada dos pacientes é determinante para o sucesso do tratamento.


Outro trabalho relevante, publicado em 2025 no Journal of Endourology, avaliou 227 pacientes tratados com HIFU de glândula inteira entre 2011 e 2019. Após um seguimento mediano de 47 meses, observou-se sobrevida livre de falha de 97% em um ano, 82% em três anos e 75% em cinco anos.


Os resultados também foram expressivos em relação aos desfechos funcionais. Cerca de 83% dos pacientes permaneceram continentes e aproximadamente 62% mantiveram função erétil suficiente para atividade sexual. Além disso, a sobrevida livre de metástases em cinco anos foi de 93%, enquanto a sobrevida específica por câncer alcançou 97%.


Em 2023, participei de uma revisão internacional publicada na revista European Urology, que reuniu evidências de 29 estudos sobre terapias ablativas, incluindo o HIFU. A análise demonstrou resultados oncológicos intermediários de longo prazo comparáveis aos observados em outras modalidades terapêuticas, com taxas de preservação da continência urinária próximas de 96% e manutenção da função erétil em parcela significativa dos pacientes.


Quando analisamos essas pesquisas em conjunto, percebemos uma evolução consistente da qualidade das evidências disponíveis, algo que foi fundamental para a revisão do posicionamento regulatório no Brasil.


Mais opções para os pacientes, com responsabilidade e critério


É importante destacar que o reconhecimento do HIFU pelo CFM não significa que ele substitui tratamentos consagrados, como a cirurgia ou a radioterapia.


O câncer de próstata é uma doença heterogênea, com diferentes graus de agressividade e comportamentos biológicos distintos. Por isso, não existe uma única solução capaz de atender a todos os pacientes.


O HIFU não é uma tecnologia para todos os casos. Seu sucesso depende diretamente da seleção adequada dos pacientes, considerando características do tumor, perfil clínico, exames de imagem, expectativas individuais e objetivos terapêuticos.


A decisão sobre o tratamento ideal deve continuar sendo construída por meio de uma discussão detalhada entre médico e paciente, avaliando benefícios, limitações e possíveis impactos de cada estratégia disponível.


O que muda agora é que passamos a contar oficialmente com mais uma ferramenta terapêutica respaldada por evidências científicas robustas.


Acredito que a incorporação do HIFU abre caminho para uma maior disseminação da tecnologia em centros especializados e para a ampliação do acesso a tratamentos menos invasivos. Ainda há desafios importantes pela frente, incluindo estudos comparativos de longo prazo, refinamento dos protocolos e aperfeiçoamento dos critérios de indicação.


Mas o reconhecimento do CFM representa um passo decisivo. Ele mostra que a medicina continua avançando em direção a tratamentos cada vez mais personalizados, capazes de buscar não apenas o controle do câncer, mas também a preservação da qualidade de vida. E é exatamente essa combinação que deve orientar o futuro do tratamento do câncer de próstata.

 

Dr. Gustavo Guimarães

Cirurgião Oncológico especializado em tumores urológicosDiretor do Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica (IUCR)Coordenador dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da BP

 

Estudos científicos citados:


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