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O que signfica liderar o departamento cirúrgico oncológico de um hospital de referência

  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Como cirurgião oncológico, estar na gestão de uma estrutura cirúrgica de alta complexidade acrescenta a responsabilidade de criar condições para que a qualidade da assistência não dependa exclusivamente da experiência de um profissional ou de uma equipe, mas esteja incorporada à forma como a instituição pensa e atua no cuidado do paciente oncológico.


Dr. Gustavo Cardoso Guimarães

O Brasil deverá registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028. Mesmo quando excluímos os tumores de pele não melanoma, permanecem aproximadamente 518 mil novos casos anuais. O câncer já se consolidou entre as principais causas de mortalidade no país e se aproxima das doenças cardiovasculares como principal causa de morte.


Esses números dimensionam um dos maiores desafios que a medicina e os sistemas de saúde terão de enfrentar nas próximas décadas.

E há uma característica desse desafio que merece atenção: não existe um único câncer.


O perfil epidemiológico reúne tumores de diferentes órgãos, comportamentos biológicos, graus de complexidade e necessidades terapêuticas, uma diversidade que torna a assistência oncológica particularmente complexa. Mama, próstata, cólon e reto, pulmão, estômago, colo do útero e dezenas de outras neoplasias compõem um cenário no qual a tomada de decisão exige a atuação de diferentes especialidades, inovação tecnológica, competências e modelos de cuidado efetivos.


Como cirurgião oncológico, estar na gestão de uma estrutura cirúrgica de alta complexidade acrescenta a responsabilidade de criar condições para que a qualidade da assistência não dependa exclusivamente da experiência de um profissional ou de uma equipe, mas esteja incorporada à forma como a instituição pensa e atua no cuidado do paciente oncológico.

Precisamos enxergar simultaneamente centenas de trajetórias diferentes.


Isso significa compreender as especificidades da oncologia, as necessidades do paciente, como cada especialidade funciona, como as equipes se relacionam, quais processos sustentam a assistência, onde estão os riscos, como os resultados são medidos, de que maneira o conhecimento produzido pela experiência e pela pesquisa podem ser transformados em evoluções.


A pergunta que fazemos é: como garantir que tenhamos as melhores condições para tomar a decisão certa, para cada paciente, em toda a cadeia do cuidado?


O resultado de uma cirurgia oncológica é multifatorial, envolve uma engrenagem que precisa funcionar de forma coordenada. É preciso criar mecanismos para compartilhar experiências, analisar resultados, revisar condutas e aprender com aquilo que fazemos, construindo uma estrutura sólida para que a individualização da oncologia aconteça dentro de um ambiente de segurança, evidência e excelência. Isso exige uma cultura institucional em que resultados sejam acompanhados e discutidos de maneira sistemática. Eles permitem compreender onde estamos, quais resultados estamos produzindo e onde precisamos evoluir.


É preciso também garantir que esse conhecimento circule. Em uma estrutura que reúne diferentes especialidades, a troca entre equipes é fundamental para que experiências, boas práticas e aprendizados não permaneçam restritos a determinados profissionais ou grupos.

Isso é particularmente importante na oncologia. A cirurgia é uma etapa desse processo e precisa estar integrada ao tratamento sistêmico, à radioterapia, à anatomia patológica, à medicina diagnóstica e aos cuidados perioperatórios e de reabilitação.


Outro aspecto importante é a formação das equipes. Uma estrutura de referência precisa desenvolver profissionais, estimular a atualização contínua e criar um ambiente em que o conhecimento seja compartilhado. A qualidade da assistência depende também da capacidade de formar pessoas preparadas para lidar com uma medicina cada vez mais complexa.


A oncologia que teremos nos próximos anos exigirá cada vez mais integração entre ciência, tecnologia, experiência clínica e gestão. Precisaremos de sistemas capazes de transformar conhecimento em decisões mais precisas e personalizadas, sem perder de vista aquilo que deve orientar toda essa construção: as necessidades de cada paciente.



Dr. Gustavo Cardoso Guimarães é cirurgião oncológico, especializado em tumores do trato urinário, diretor do IUCR – Instituto de Urologia, Oncologia e Cirurgia Robótica e coordenador dos departamentos cirúrgicos oncológicos da BP - Beneficência Portuguesa de São Paulo. É um dos pioneiros na utilização da cirurgia robótica o Brasil, tendo realizado mais de 5 mil procedimentos desde 2018 e formado centenas de cirurgiões e profissionais da saúde com a técnica.


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