Por que a cirurgia robótica é uma mudança de paradigma no tratamento do câncer
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A cirurgia robótica é nosso presente e abriu novas e importantes possibilidades para o paciente com câncer. A tendência é de crescimento em um movimento que aponta também para mais opções de modelos de robôs, diminuição de preços e, o mais importante, com o passar do tempo, ampliação do acesso para um número, cada vez maior de pacientes.

Receber um diagnóstico de câncer não é fácil. Termos como biópsia, estadiamento, protocolo, cirurgia, quimioterapia, entre outros passam a fazer parte do cotidiano. Nesse momento em que o paciente está vulnerável, considero ser muito importante explicar com clareza o quadro e, ao mesmo tempo, conversar sobre as melhores possibilidades de tratamento para cada caso específico.
Nos últimos anos, a tecnologia robótica evoluiu muito e redefiniu o significado de excelência em oncologia. E isso não é futuro, mas a realidade atual. A cirurgia robótica tem oferecido aos pacientes com câncer, entre outros benefícios, melhores desfechos clínicos. Ela representa uma quebra de paradigma no tratamento oncológico.
Por muito tempo, nosso grande desafio como cirurgiões era justamente chegar até onde o tumor estava. Estruturas profundas do abdômen, regiões estreitas da pelve, o interior do tórax são áreas de difícil acesso que, na cirurgia convencional, exigiam grandes incisões, o afastamento de músculos e órgãos. Mesmo diante de uma cirurgia bem-sucedida, o resultado para o paciente gerava muito trauma, dor intensa no pós-operatório e um longo período de recuperação até a alta hospitalar. Com a plataforma robótica, esse cenário mudou radicalmente.
Com incisões mínimas, introduzimos instrumentos e pequenas câmeras na área a ser operada. As imagens obtidas são muito detalhadas e impossíveis de serem visualizadas a olho nu em uma cirurgia aberta. Todas as decisões continuam a ser do cirurgião, que controla todo o procedimento a partir de uma plataforma presente no próprio centro cirúrgico.
O resultado prático para o paciente com câncer é significativo porque o tumor pode ser removido com margens mais precisas, os tecidos vizinhos saudáveis são mais preservados e o organismo sofre muito menos agressão durante o procedimento.
A recuperação pós-cirúrgica mais rápida e o melhor estado clínico são diferenciais fundamentais, pois abreviam o tempo até o próximo passo. Refiro-me aos demais tratamentos, que podem incluir quimioterapia, radioterapia, terapias-alvo e imunoterapia. E, para o paciente oncológico, o tempo pode significar a diferença entre o sucesso e o insucesso de sua jornada.
Um novo patamar com a cirurgia robótica
Tudo isso está no contexto da tecnologia robótica que, sem dúvida, representa uma transformação da cirurgia oncológica, que foi elevada a um novo patamar. O câncer de próstata foi o ponto de partida histórico, com a cirurgia robótica consolidada como referência nos grandes centros.
Aos poucos, essa realidade foi ampliada para outros tipos de tumores, como de estômago, intestino, pâncreas, fígado, tórax, além de tumores ginecológicos, urológicos e de cabeça e pescoço. Evidentemente, nem todos os pacientes têm indicação para cirurgia robótica. A avaliação é individualizada, considerando o tipo e o estágio do tumor, as condições clínicas do paciente e a disponibilidade da tecnologia.
Precursores que fizeram história
No Brasil, tivemos instituições de saúde precursoras de toda essa transformação, com a incorporação das primeiras plataformas robóticas. Tenho muito orgulho de ter participado desse movimento pioneiro aqui no Brasil, ao lado de uma equipe extremamente dedicada e preparada, com a implantação das primeiras plataformas robóticas e a realização das primeiras cirurgias.
Essas organizações se expandiram e tornaram-se referência em formação e capacitação de cirurgiões. Formar profissionais habilitados, sistematizar protocolos, participar do debate sobre regulação e acesso faz parte de um compromisso com o que há de mais avançado na medicina oncológica. E essa e sido também a minha missão.
Vale destacar que a tecnologia ainda não chegou a todos que poderiam se beneficiar dela. O custo das plataformas é elevado, a cobertura pelo sistema público de saúde ainda é incipiente e a distribuição geográfica dos centros capacitados no Brasil segue concentrada nas grandes capitais. Esses são desafios que precisam ser vencidos e, para isso, precisamos de soluções no campo da política pública, da regulação e da indústria.
O que esperamos para o futuro da cirurgia robótica
A boa notícia é que o caminho aponta para a ampliação do acesso da cirurgia robóica, já com o surgimento de novos fabricantes no mercado. Esse cenário aumenta a concorrência e ajuda a pressionar a diminuição de preços. Outro avanço relevante é o crescimento das possibilidades da formação médica em robótica nos programas de residência de algumas universidades.
A cirurgia robótica é nosso presente e abriu novas e importantes possibilidades para o paciente com câncer. A tendência é de crescimento em um movimento que aponta também para mais opções de modelos de robôs, diminuição de preços e, o mais importante, com o passar do tempo, ampliação do acesso para um número, cada vez maior de pacientes.
Gustavo Cardoso Guimarães



